A correlação entre exposição midiática e fama alavancada e a propulsão de carreiras de celebridades na política eleitoral brasileira

Fonte: GShow

Eleições democráticas diretas previstas em constituições republicanas nada mais são do que competições para aferição do nível de popularidade dos candidatos envolvidos no pleito que se propõem a competir pelos votos do eleitorado. Os preferidos pela maioria são eleitos; tão simples quanto isso. Seguindo esta lógica, quem detém previamente o fator fama tende invariavelmente a largar na frente. Ter sua imagem, suas ideias, sua voz e/ou seu trabalho conhecidos e reconhecidos pelo grande público, a priori, constitui inequivocamente uma vantagem neste processo, independente do juízo de valor atribuído (boa fama vs. má fama). A exposição recorrente de indivíduos em veículos de comunicação de massa como cinema, rádio, publicações impressas, internet e sobretudo televisão constitui, neste sentido, uma mais-valia estratégica que vem sendo capitalizada nas urnas. A mídia passa então a desempenhar a função de trampolim natural para cargos eletivos, como tem sido particular- e historicamente o caso do Brasil a partir da redemocratização. Antes disso, um exemplo clássico foi o do 40º presidente dos Estados Unidos da América Ronald Reagan, que construiu seu nome como ator em filmes e na TV entre as décadas de 1930 e 1960 e que veio a governar o país mais poderoso do mundo por dois mandatos na década de 1980.

Fazendo uma breve recapitulação cronológica, o apresentador e dono do canal SBT Silvio Santos chegou a disputar a eleição presidencial de 1989 pelo PMB, apesar da candidatura ter sido logo impugnada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Marta Suplicy, originalmente psicóloga comportamental e sexóloga que integrou o TV Mulher, programa que foi ao ar entre 1980 e 1986 na TV Globo, foi eleita deputada federal pelo PT-SP em 1994, tendo construído longeva carreira política a partir daí e, mais recentemente, mudado algumas vezes de partido. Ainda na década de 1990, Celso Russomanno, jornalista especializado em defesa do consumidor que aparecia regularmente no Aqui Agora do SBT, lançou-se candidato a deputado federal também em 1994 pelo PSDB-SP, tendo sido o candidato mais votado naquele ano. Após vasta trajetória eleitoral, é atualmente pré-candidato à prefeitura de São Paulo pelo Republicanos. Igualmente, seria difícil imaginar o casal Anthony e Rosinha Garotinho ocupando o posto de governador(a) do Rio de Janeiro a partir de 1999 e 2003 respectivamente não fossem suas reputações como radialistas no norte fluminense.

A década seguinte presenciou um crescimento expressivo desse padrão. Sonia Francine, a Soninha, VJ da MTV Brasil e apresentadora da TV Cultura, tornou-se vereadora de São Paulo pelo PT em 2004, tendo disputado e perdido as eleições para deputada federal em 2006 e para prefeita em 2008. Em 2016, foi reeleita vereadora. Por sua vez, depois de se apresentar em inúmeros programas de entretenimento ao longo de sua carreira artística, chegando a ter seu próprio programa na RedeTV! a partir de 2013, o cantor Frank Aguiar foi eleito deputado federal por São Paulo em 2006 e vice-prefeito de São Bernardo do Campo em 2008. Mais adiante, foi derrotado em nova tentativa de chegada ao Congresso Nacional, em 2014. O falecido estilista Clodovil Hernandes foi outra celebridade que transitou bastante por rádio e televisão (passou por Globo, Bandeirantes, Manchete, CNT, TV Gazeta, RedeTV! e TV JB) e que foi bem-sucedido nas urnas: foi eleito deputado federal por São Paulo em 2006. Na mesma linha, o pagodeiro Netinho de Paula, do grupo Negritude Júnior, foi eleito vereador por São Paulo em 2008 e 2012. Frequentou diversos programas de auditório na década de 1990, apresentou o seu próprio programa nos canais Record, SBT, RedeTV! e Bandeirantes e fundou um canal em 2005. Acelino Freitas, mais conhecido como Popó, é mais um exemplo de conversão de capital midiático em político: depois de épicas vitórias e títulos mundiais defendidos no boxe (devidamente transmitidas pela Globo entre 1999 e 2002), o lutador concorreu em 2010 a deputado federal pela Bahia. Inicialmente não levou, mas herdou a vaga por ter sido indicado como suplente. Tentou reeleição em 2014, mas foi derrotado.

A segunda década dos anos 2000 observou um verdadeiro boom desta novíssima fauna política brasileira. O ex-BBB Jean Wyllys, filiado ao PSOL, foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro em 2010, tendo sido reeleito em 2014 e em 2018. O humorista Tiririca talvez seja o caso mais emblemático de todos. Foi eleito também três vezes para o mesmo cargo por São Paulo desde 2010. Surpreende o fato de, logo na primeira tentativa, ter sido o deputado mais votado do Brasil. O empresário e apresentador João Dória Júnior é outro que vem acumulando vitórias em disputas eleitorais seguidas. Eleito prefeito de São Paulo em 2016, deixou o cargo em 2018 para se lançar como candidato a governador do estado mais rico do Brasil e ganhou. Com passagens por Bandeirantes, Manchete e RedeTV!, protagonizou também o reality show O Aprendiz (a exemplo do atual presidente estadunidense Donald Trump), e vem sendo apontado como potencial candidato à presidência do país em 2022. Numa lista ainda mais recente (eleições de 2018), também se inserem Alexandre Frota, ator convencional e pornográfico eleito deputado federal por São Paulo, Jorge Kajuru, jornalista esportivo da Bandeirantes, SBT e TV Esporte Interativo eleito senador por Goiás (foi vereador em Goiânia logo antes), além de Joice Hasselmann, jornalista política que passou por CBN, BandNews FM, TVEJA (da revista semanal Veja) e afiliadas de Record e SBT antes de ser a mulher mais votada para a Câmara dos Deputados da história do Brasil. Wilson Miranda Lima, atual governador do Amazonas, também merece menção por ter apresentado por oito anos o programa Alô Amazonas, da TV A Crítica, afiliada da Record naquele estado.

2018 também foi marcante pelos ineditismos relacionados à eleição de Jair Bolsonaro para a presidência da República brasileira. Apesar de nunca ter atuado no ramo da comunicação ou do entretenimento, o então membro do baixo clero da Câmara Federal foi, ao longo da atual década, personagem constante em programas como CQC e Pânico (Bandeirantes), além de ter aceitado múltiplos convites para participações, debates e entrevistas no Super Pop (RedeTV!), apresentado por Luciana Gimenes. Opiniões polêmicas, radicalismos espontâneos, falas preconceituosas, posições políticas extremadas e comportamentos distantes do politicamente correto acabaram falando aos corações de uma maioria silenciosa, fazendo sua visibilidade e popularidade limitadas fermentarem. O jornalista e apresentador de TV José Luiz Datena (Globo, Record, RedeTV! e Bandeirantes) é mais um que engrossa o elenco dos que transformam fama em votos, flertando regularmente com a possibilidade de concorrer a cargos eletivos. Quase veio como prefeito de São Paulo em 2016 e quase se candidatou a senador em 2018. O assédio de partidos políticos a ele não cessa. Roberto Justus (Record, SBT, Bandeirantes) é outro nome de peso que, ainda de forma acanhada, não descarta uma aventura eleitoral. Em entrevista dada em 2019 à revista IstoÉ, disse que “adoraria ser primeiro-ministro do Brasil” — relevando uma sutil crítica ao sistema presidencialista. A novíssima geração de YouTubers e debatedores da CNN Brasil Gabriela Prioli e Caio Coppolla também não devem ser esquecidos. Sempre com análises, argumentações e comentários extremamente politizados (e polarizados) em várias mídias, não seria surpreendente se um deles (ou ambos) lançassem carreiras políticas num futuro próximo.

Uma das personalidades mais influentes no binômio mídia-política é certamente o empresário e apresentador Luciano Huck. Com passagens por rádios e o canal CNT Gazeta, Luciano viu seu programa H virar fenômeno nacional de audiência na Bandeirantes entre 1996 e 1999. Contratado pela Globo, está há 20 anos no ar com o Caldeirão do Huck todos os sábados à tarde, sem falar em todas as aparições em filmes, novelas, premiações, redes sociais e comerciais de TV de marcas como Nissan, Tim, Itaú, XP Investimentos, Ypê, Ricardo Eletro, Magazine Luiza, Perdigão e Guaraná Antártica. Com toda esta proeminência já bem consolidada nas mentes dos brasileiros e um legado total de mais de 4 mil horas de conteúdo audiovisual exposto (na maioria das vezes, ao vivo) em televisão aberta com abrangência nacional nos últimos 25 anos, é preciso ainda equacionar sua sociedade em empresas, gestão de fundo de investimentos próprio e patrimônio acumulado. Huck tem se envolvido cada vez mais na política brasileira por meio do financiamento individual de campanhas de candidatos apadrinhados e da sua participação nos chamados movimentos cívicos apartidários, como o Agora, o RenovaBR e o Acredito. Sem filiação partidária até o momento, Luciano é próximo do Cidadania (antigo PPS e antigo PCB, atualmente presidido por Roberto Freire). Huck (ainda) não é político e muito menos candidato à presidência do Brasil em 2022, mas vê-lo hipoteticamente disputando o cargo contra Bolsonaro e Lula seria literalmente uma “loucura, loucura, loucura”. Finalmente, ainda que não seja o mais saudável dos caminhos democráticos, a televisão e os meios de comunicação em geral vêm inegavelmente exercendo um poder muito grande na definição dos caminhos da nossa sociedade. Forma não é nada sem conteúdo. O brasileiro médio não deve se enganar e se deixar levar por rostinhos bonitos. Deve se informar e refletir muito diante de cada oportunidade de escolha dos seus representantes e, idealmente, parar de votar inconsequentemente como se estivesse num “paredão” do Big Brother Brasil, numa enquete do UOL ou numa decisão de desfecho do programa global Você Decide.

Internationalist and Global Public Health professional holding a Master’s degree in Public Policy. Brazilian / Portuguese.

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